Free Blog Counter

Contos de Uma Mente Insana: novembro 2007

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Um mapa para "Kalmykolis"

Aí encontra-se o mapa do mar Cáspio e das redondezas pouco antes da Batalha de Kalmykolis (do conto abaixo). No canto superior esquerdo, lê-se: "Mapa para o Escolhido¹ Imperador Kalmyk, Vrata II".
¹OBS: "Escolhido" significaria, nessa língua, um adjetivo similar à "Sagrado" ou "Honorável".

Em amarelo, os portos Kalmyks;
Em laranja, os portos Turcomeno-Uzbeques;
Em roxo, os portos Azeris;
Em branco, os portos Soviéticos;
Em azul escuro, os portos Siberianos.
E, em preto, estão as terras não exploradas por Kalmykolis.

domingo, 25 de novembro de 2007

Um novo conto... dessa vez, em outro lugar do mundo... e em uma época BEEM distante.

KALMYKOLIS

A cidade de Kalmykolis, a entrada para o Mar Kazbiun, brilhava com o sol nascente aquele dia, um dia de céu azul. "É o inverno a chegar", pensou Satika, enquanto fazia as oferendas de água no Pequeno Jardim. Um sinal tocou, ao longe. O monge, rapidamente, trocou sua roupa laranja pela armadura. "É chegada a hora", pensou. Atrás das muralhas, ao longe, as tropas uzbeques, comandadas pelo Duque Vaan, um soviético que servia de general do exército na República Turcomeno - Uzbeque, se posicionavam. Sim, aqueles malditos Saikskoras¹. "Agora, eles devem estar apenas esperando o sinal", pensou Satika. Ele, então, pegou sua espada russa, seu arco composto, do tipo zhong, e saiu do Templo Central de Kalmykolis.

No parque norte, próximo da muralha, o Comandante Kauno reunia uma brigada de cidadãos. Ao passar por Natanka, amiga de infância de Satika, ele exibiu um breve sorriso, ao pegar seu escudo, esperando que ela o houvesse perdoado. Natanka não respondeu o gesto, como sempre, então Satika foi em direção ao local onde Kauno reunia os cidadãos.

Enquanto caminhava, percebia as donas de casa o olhando, estranhando o cumprimento da medida do Imperador que não só permitia mas também incentivava que todos lutassem na defesa da pátria-mãe, incluindo religiosos e mulheres. Por sinal, um imperador que estava abrigado muito longe, no Tibet, junto com o 36º Dalai Lama, Temujin Gyatso. Tudo que o Imperador e o Lama fizeram foi mandar suas preces para nós. "Por que, Buda, tu nos atenderia agora", pensava Satika enquanto andava, "se nem pode ajudar-me com Natanka?". "De qualquer modo, as preces de Temujin são a voz de Buda, então, a vitória é próxima", tentou crer Satika, acelerando o passo.

Eu o vi passar minha casa. Sinto pena de mim mesmo por não ter sua coragem, sua vontade de lutar, àquele momento. Eu apenas fiquei com meus filhos e mulher enquanto os homens de verdade do Império iam para a guerra.

Essa crise, afinal, havia começado logo quando o Império Kalmyk se formara, pouco mais de 150 anos atrás, ao norte, lá pelo ano 315 ou algo assim. Depois, nos fortalecemos ao conquistar o até então selvagem estreito, e nos tornarmos mais poderosos do que muitos estados, incluindo a União Soviética, a Circássia e até mesmo nossos aliados do Reino do Azerbaijão. Como nosso poder aumentava, a República Turcomeno - Uzbeque sentia medo em perder seu monopólio na Terra dos Estreitos e na Rota da Seda, e atacou nosso embaixador que simplesmente pedia acesso à Arália para um pequeno navio cargueiro vindo de Nova Veneza, distante aliada nossa. Imediatamente, o Imperador Vrata II mandou fecharem o estreito, mas ele não ficou para contar a história, já que fugiu para o Tibet ficar com o Dalai Lama, bem longe da guerra - e de seu povo.

Mas, continuando com a história de Satika, ele se aproximou do Comandante, que separava a brigada em batalhões.

-Comandante, senhor! - disse Satika.

-Monge? Como posso ajudá-lo? - Kauno reconheceu o status de Satika por sua cabeça raspada.

-Eu vim lutar, senhor. Em que batalhão ficarei?

-Bom, o senhor é monge, estudou, por quê quer lutar? - falou Kauno, aparentemente nervoso.

-É meu direito como subordinado do Imperador Vrata II defender minha cidade e minha nação.

-Monge, vá para sua casa. Aqui é um local apenas para militares.

-Militares, como o ferreiro, o açougueiro...?

Kauno não respondeu, mas Satika continuou.

-Senhor, eu treino muito. Diariamente. Eu consigo acertar um coelho a duzentos metros de distância.

-Então acerte aquele alvo - e Kauno apontou para um pequeno alvo a trezentos metros de distância.

Com apenas um tiro, Satika atingiu o alvo bem no centro. Os cidadãos olharam para o monge.

-Impressionante. - disse o Comandante.

-Então, onde ficarei senhor?

-Você tem certeza de que quer fazer isso? Escolha sabiamente.

-Sim.

-Então vá para o 3º batalhão, entre as muralhas leste e norte..

-Obrigado, comandante. Estou indo. - disse Satika, reverenciando o comandante.

O comandante continuou parado no mesmo lugar. "Monge idiota.", pensou. "Garanto que hoje à noite quase todos, senão todos, os cidadãos estarão mortos. Pelo menos eu e esse monge estaremos entrando no reino dos mortos. A única esperança de Kalmykolis são os reforços azeris, que sabe-se lá onde estão e mesmo SE estão.".

Satika então partiu para o terceiro batalhão, composto de 500 homens, todos armados com arcos similares ao seu, e todos prestando atenção no monge. Estranhamente, um turco estava entre os kalmyks, olhando para Satika, exibindo seu volumoso bigode. Os turcos eram um problema antigo para Satika, da época em que nós éramos crianças. Quando Kalmykolis foi saqueada por piratas turcos, e sua mãe -junto com a minha- foram levadas pelos bárbaros. Agora, os tempos eram outros, e a ameaça de morte, bem maior.

Então, um grito do muezzin da mesquita azeri foi ouvido por todos. Satika estranhou o sinal tão cedo da manhã, pois ele chamava os muçulmanos apenas de tarde. O Comandante sabia bem o que era, e gritou:

-São os uzbeques!!

----------------------------------------------------------------

O 3º batalhão então subiu correndo a muralha, para tomar suas posições. De onde Satika estava, ele pôde avistar ao longe 1500 cavaleiros, cinco catapultas leves, e vinte navios. Três dos navios atiravam com seus canhões de fogos de artifício e bestas gigantes diretamente para a cidade, enquanto outros dez se distraíam com os cinco navios de guerra que Kalmykolis pôde providenciar àquele momento. Satika viu saírem de cinco navios um aríete de excelente nível, 300 arqueiros e 700 soldados de infantaria. "Agora eu morro.", pensou.

As tropas pararam por um minuto, o rugido de tambores foi ouvido por todos, e, ao longe, um homem começou a falar, gritando tão alto que podia ser ouvido da própria cidade:

-Irmãos Uzbeques! Irmãos Turcomenos! Irmãos Cazaques! Irmãos de todas as nações que aqui conosco lutam pela vitória!

O som de milhares de urros chegou aos ouvidos de Satika, e de todo o 3º batalhão.

-Hoje, derrotaremos nossos inimigos! Hoje, o paganismo desses demônios em carne humana será extirpado da face da Terra, se assim Deus quiser! Até hoje a noite, essa cidade será nossa!

Inimigos: vocês, covardes, escondem-se atrás de uma muralha, e acham que ISSO irá segurar as tropas da Justiça!

Não se preocupem: Hoje, jantaremos sob seus cadáveres! E, amanhã, Kalmykolis estará em ruínas!

Hoje, mostraremos porque NOSSO povo governa o mundo! Hoje à noite, Kalmykolis queimará! Inimigos, sofrereis por vossa insolência!

Exterminem!! Matem todos!!!

Milhares de urros, em tom muito mais alto, foram ouvidos em toda a cidade. Mesmo da minha casa, onde eu mal podia ver aquele ponto da muralha norte, pude ouvir os rugidos desses demônios.

Então, o Cerco de Kalmykolis começou.

Um aríete começou a mexer-se em direção ao Portão Norte da cidade, local onde estava o 4º Batalhão. Eles prepararam seus arcos, algumas tochas, e começaram a atirar suas flechas com fogo. Alguns homens do 3º, incluindo Satika, imitaram o movimento.

Sem muitos problemas, o aríete se incendiou, e os 15 homens que o carregavam fugiram. Satika então se alegrou, e o turco, a seu lado, chamou sua atenção:

-É cedo para comemorar, mongöçe. - disse.

-Me deixe em paz.

-Como? - perguntou o turco. -Essa foi apenas a 1ª onda. Olhe, aí vem mais!

Então, após todos se reunirem, 3500 soldados de infantaria e mais 1500 arqueiros marcharam em direção à cidade, alguns com pesadas armaduras, como os hoplitas mercenários gregos, e outros, como os cazaques, que mal se vestiam para a batalha, carregando escadas.

Uma pedra em chamas passou por cima do 3º batalhão.

-O quê...? - falou um soldado.

-FLECHAS! - gritou o turco.

O soldado em dúvida foi atingido, junto com outros trinta do batalhão.

-Você está bem, mongöçe? - o turco perguntou, frisado novamente essa palavra em sua língua.

-Sim. - disse Satika, friamente, tentando ficar no chão.

-Mongöçe, não devemos parar de lutar. Se eles conseguirem nos vencer, jantarão nossos cadáveres, senão nós mesmos vivos. Por favor, fique com meu capacete. - e o turco lhe alcançou um capacete semi-coberto, possivelmente grego, que Satika colocou, sem agradecer.

Com um tiro de catapulta, a muralha à esquerda do 3º batalhão, e contendo muito do 4º, foi despedaçada. A seguir, a infantaria uzbeque, percebendo a facilidade, marchou rumo à abertura. O Comandante Kauno então gritou do chão:

-3º e 4º batalhões, vigiar a abertura! Aqueles do 3º batalhão que tiverem boas espadas, aqui!

-Mongöçe, sinto por termos de nos despedir, mas eu irei acompanhar o Comandante e os circássios lá embaixo.- disse o turco.

-Eu também tenho uma espada - disse Satika, exibindo sua espada russa, com indiferença. - Eu desço junto.

E Satika saiu de sua posição nos muros de Kalmykolis, junto com cem dos 350 homens ainda vivos no 3º Batalhão. Os 250 remanescentes foram para a beira do rombo, onde já estava o quarto, com noventa homens, posicionado do outro lado. Deles, todos morreriam.

A infantaria uzbeque, acompanhada agora de cavalaria turcomena pesada, comandada diretamente pelo próprio Duque Vaan, veio para cima. Na defesa, mil lanceiros, principalmente mercenários circássios, defendiam o buraco feito na cidade. Quinhentos espadachins, dentre eles Satika, o turco e o Comandante, mais 150 homens com enormes tacapes "Katera"² posicionavam-se logo atrás, "onde esperaremos os circássios morrerem", pensou Satika. E, de qualquer modo, os muçulmanos, que entoavam os cânticos para Allah, já tinham certeza de seu destino.

Satika, suando por baixo de seu capacete semi-coberto, esperava pelas hordas que simplesmente, sem piedade alguma, destruíam os circássios, muitas vezes de modos terríveis, perfurados na cabeça, e, outras vezes, no estômago, apenas para causar dor e para a diversão dos turcomenos, sedentos por sangue de seus adversários.

Ao ser reconhecido, o comandante se aproximou de Satika.

- Monge, fuja enquanto pode. Não temos muita chance. Esses demônios não respeitam nem mesmo os homens de fé.

- Comandante, olhe para trás.

A cavalaria de Vaan furara o bloqueio.

- PIDAKARAH! À LUTA, PORRA! - gritou um homem, exaltado.

Vaan avançou. Kauno se posicionou para a batalha, junto com Satika. À frente, com um grito de "PORRAAA!!!!!!", os carregadores de Katera avançaram em um ataque suicida. A essa hora, o Sol começava a se por no Mar Escuro.

De qualquer modo, eles tentavam resistir. Nesse momento, todos os soldados, kalmyks e circássios, budistas e muçulmanos, homens e mulheres, ferreiros e monges, todos lutavam por suas famílias. Por sua cidade. Por sua liberdade. Por menos que houvesse em disputa, todos lutavam por algo que se importavam, inclusive os mercenários; todos lutavam por suas vidas.

Dois homens a digladiar chegaram perto de Satika. Um deles, o bigodudo sem capacete, começou a falar:

- Mongöçe, nem tive tempo de me apresentar. Sou Mehmet. - De seu cinto, o turco retirou uma adaga e cravou em seu adversário.

- Satika. - respondeu o monge.

- Sabe, é irônico. - disse o turco, retirando o capacete. - Eu fugi quando os curdos queimaram minha cidade. E, aqui, em uma terra estrangeira, luto por pessoas que desconheço, por um motivo igualmente não conhecido por mim.

- Quer saber? Eu não estou nem aí. Seu povo fez o mesmo com o meu, 30 anos atrás.- Satika afastou-se de Mehmet, deixando-o falar sozinho, e avançou para a batalha.

----------------------------------------------------------------

800 soldados a pé atravessavam o buraco da muralha. Aos lados, mais ou menos 300 circássios faziam um pequeno corredor com suas lanças, mas nada realmente útil. E, ao redor dos circássios, se encontravam os batalhões kalmyks, agora 550 homens.

O Comandante Kauno lutava na primeira fila, quase junto aos circássios. Já contava 63 homens mortos pela ira de sua espada curva, e um ferimento em seu braço direito, que o fazia retirar-se do perímetro de combate imediato. Mas, a apenas 20 m de si, Kauno viu um homem de armadura nobre cravar uma espada no pescoço de um circássio, rindo alto. "Só pode ser Vaan", pensou Kauno, de imediato. '“Não terei outra chance.”. O comandante, segurando o braço, se aproximou do soviético.

Satika então percebeu o comandante, ferido, se aproximar do que devia ser o Duque Vaan. "Ele vai morrer!", pensou alto, e saiu correndo.

Vaan, após matar o circássio, desceu de seu cavalo, puxou uma espada pesada (por sinal, uma das únicas Lenines já produzidas) e retirou seu capacete, revelando um rosto jovem e um longo cabelo, e foi esfaquear o corpo do circássio. Kauno, logo a seguir, tentou levantar sua espada, mas, com um som profundo, deixou-a cair. Vaan virou-se, com uma expressão maligna:

-Parece que agora é sua vez! - ele disse, em kalmyk, em um tom alegre.

O Duque botou seu capacete e chegou perto de Kauno. O comandante, imóvel, não tinha como reagir quando Vaan acertou-lhe um golpe na cabeça e, após cair no chão, ter o pescoço esmagado pelo pé do soviético.

Satika, a alguns metros de distância, desembainhou seu arco e atirou em Vaan, mirando em seu pescoço. A flecha atingiu seu alvo, o capacete de Vaan. O Duque virou-se, ao sentir o golpe, e falou:

-Ah, mais um?

Vaan lutou com Satika. Ele, alegremente, brincava com Satika como em uma luta infantil, enquanto Satika sinalizava para o comandante, vendo se estava vivo, enquanto encarava seu poderoso inimigo. Ao seu redor, os kalmyks tentavam resistir, agora reforçados por mais 500 mulheres que, ao verem seus maridos lutando, vieram ajudá-los, armadas levemente.

Com um golpe, Vaan derrubou o capacete de Satika, revelando sua ausência de cabelos. Vaan, inicialmente surpreso, começou a gargalhar:

-Eu não acredito! Estou lutando com um monge! Um... padreco encarando o supremo líder do exército uzbeque! Hahahahaha!- riu, virando-se.

Satika puxou seu arco e flecha. E Vaan, ao desvirar-se, foi flechado na garganta.

-Sim. Um monge. - disse Satika, puxando sua flecha.

Satika aproximou-se de Kauno. O comandante estava morto, caído no chão. "Não há como vencer", pensou Satika. “A noite se aproxima, e, com ela, a morte".

Pensou no templo, que queimava ao longe. Em Natanka, que poderia estar morta, assim como estava o comandante. Na cidade, que arderia sob o fogo implacável dos turcomenos, que, sedentos por um pouco mais de poder, estavam dispostos a sacrificar milhões. Não havia esperança. Os azeris deviam encontrar-se a um dia da cidade. Eram mais de dez mil soldados inimigos, para três mil civis de Kalmykolis. Não haveria reforços. E todos pereceriam.

Cinco cavaleiros, subordinados de Vann, ao verem um monge com armadura ao lado do corpo de seu líder, não tiveram dúvidas. Cavalgaram.

No outro lado da cidade, no mar, vinte navios, carregando cinco mil homens, chegaram com o pôr-do-sol. Mohammed II do Azerbaijão, novamente, não falhara conosco.

Finalmente, reforços.

¹trad: "Senhores da Seda"

²trad.: "Derruba-Cavalo".

Para começar, nada mais do que o Primeiro!

O Presidente

“Cidadãos, hoje vos faço um pronunciamento muito importante. [...] Agora, encaramos nosso futuro, com perdas terríveis e irrecuperáveis. Agora em diante, seja como Deus quiser”.

Carlos Müller Geisel, presidente em ofício da República Federativa do Brasil, 2066-2081.

Era uma tarde comum de agosto, seca e ensolarada, em Brasília. O Presidente, em suas roupas biodegradáveis (ou, como seu maior crítico, da revista Ação, dizia: “para agradar aos ambientalistas”), caminhava em seu jardim oriental, quando as notícias chegaram.

O segurança boliviano falava com outro, congolês, na entrada do jardim, parados à porta do Palácio, com seu design “futurista” de 100 anos atrás, e assim ficaram por minutos. O Presidente, de qualquer jeito, falou, para si mesmo, “que seja”, e continuou a caminhar, entrando no túnel de cerejeiras, onde apreciou as flores que, com a irrigação artificial, começavam a nascer.

Na saída, o congolês o esperava, junto do boliviano e de um terceiro, que parecia árabe. Imediatamente, o retinto segurança chamou a atenção do Presidente:

-Sir. Please, if you can, come with us.- disse o congolês, usando a língua mundial.

-Em português, por favor, senhor... - o Presidente olhou o ID do homem -... Mugabe. - disse o Presidente.

- Kemi Mugabe é novo aqui, senhor. - disse o boliviano. – Ele não sabe português, mas é um bom segurança.

- Por favor, presidente, venha conosco. – disse o árabe, com forte sotaque.

Os quatro homens voltaram para o Palácio cruzando o túnel de cerejeiras, o presidente na frente, os três seguranças atrás.

Saíram do jardim rapidamente, o presidente olhando para a paisagem que ele próprio criara, como Ministro da Agricultura, o terceiro cargo mais importante em todo o país. Ultrapassaram a entrada especial, e, cruzando um pequeno corredor, o Presidente estava em seu gabinete, feito inteiramente de vidro esverdeado e mármore. Nas paredes, fotos do Presidente com o Rei da Inglaterra, com a Chanceler da Europa, com o Frei Jones, e, no centro, da primeira-dama do Brasil, seus filhos gêmeos e o cachorro.

À sua frente, o Ministro da Defesa, em uniforme militar, o aguardava.

- Presidente Geisel. – o ministro tirou seu chapéu.

- General Silva. – disse o presidente, fazendo uma continência irônica, respondida com uma gargalhada pelo ministro, o general mais carismático que o Presidente jamais conhecera.

- Senhor, não sei se Vossa Excelência está a par dos acontecimentos, mas algo horrível ocorreu hoje. – disse o General, tentando controlar o riso.

- Outro grupo de Ilegais parado em Noronha, presumo? – disse o presidente, pegando um copo de uísque escocês.

- Não, senhor. Muito pior. – O ministro parou de sorrir, olhando o presidente com muita seriedade, como um General.

- O que seria, Marcus? – perguntou o Presidente.

O General, então, se aproximou de uma janela, e, com um toque e um estalar de dedos, as janelas escureceram e, de uma delas, o âncora da BHC falava extremamente nervoso. O Presidente podia ver, na própria sede da BHC, pessoas correndo, escandalizadas.

- Notícias acabaram de chegar. A Bolsa de Beijing foi destruída. A economia está arruinada. Em Nova Delhi, uma dos poucos grandes centros econômicos ainda inteiros, aqueles que podem correm. Aqueles que não podem, suicidam-se.

Imagens da moderníssima capital da Índia apareceram. A cidade incendiava-se, e, de seus arranha-céus, centenas de pessoas pulavam para a morte.

Então, rapidamente, as imagens voltaram para o âncora, agora com os olhos inchados, que, com muita dificuldade, tornou a falar.

- Os senhores me desculpem, mas tenho de falar uma coisa. Meus filhos estavam no Rio. – e, pela primeira vez em sua vida, o Presidente vira um jornalista chorar, de verdade, e ao vivo.

O Ministro da Defesa desligou o holoprojetor, mas manteve a sala escura. Foi até o bar, pegou outra garrafa de uísque escocês e começou a beber no gargalo. O Presidente, em estado de choque, tentou falar:

- O que é isso, pelo amor de Deus?- disse, abismado. – É um filme, certo? Você sabe que eu caio nessas coisas, Marcus. Mas por que algo tão pesado quanto isso?- perguntou o político, agitado como uma criança.

- Senhor, não é um filme. Eu juro pelo Salvador.

- Então - disse o presidente, sem sentimentos. – Só pode ser a Terceira Guerra Mundial. Quem foi o agressor? Acredito que só podem ter sido os EUA, aqueles reacinhas de merda que não aceitam a Res Publica de modo algum!

- Carlos. – o Ministro mexia em seu computador, chamando o Presidente por seu primeiro nome. – Não é uma guerra convencional. Nenhuma arma foi disparada. Apenas isso.

Com um movimento de suas mãos, o General ligou novamente o holoprojetor.

- Essa. – o General parou a holografia antes mesmo de começar. – É a sede da Res Publica Terranorum, Oceano Atlântico Norte. – falou, exibindo um frame da imensa Insula Terrana, que, do oceano, erguia-se rumo ao céu com seu corpo de um quilômetro de altura.

Um filme, feito de dentro da própria torre, exibia uma onda imensa, que, surgindo do nada, simplesmente cobria os 100 metros inferiores da torre.

- Não entendo... Como um tsunami na Insula pode ter afetado todo o planeta? – perguntou o Presidente.

-Cinco mil pessoas morreram aqui, imediatamente, incluindo o Chanceler Kánas – disse o General, tremendo. – Senhor, me desculpe.

- Há quantas horas isso ocorreu? – perguntou o Presidente.

- Duas, senhor.

- E por que não fui contatado anteriormente?

- Aparentemente, tivemos problemas de satélite por todo o planeta, quinze horas atrás, e recuperamos tudo há menos de duas horas. Mas, até agora, ninguém conseguiu contatar nenhuma das bases e cidades da Lua, e muito menos o posto de Marte.

- E quantas baixas acreditam-se ter ocorrido? – perguntou o Presidente.

- Aproximadamente dois bilhões de mortos, principalmente na China, na Índia e na Europa. Imagina-se que, em Bangladesh, um pequeno país do Sul da Ásia, dos 400 milhões de habitantes originais daquelas terras, pouco mais de 300 mil tenham sobrevivido.

- Meu Deus.

- É... Pelo menos nem Brasília nem Goiânia, minha cidade, foram afetadas.

- Ah, sim. General, fale-me uma coisa: e o Brasil? – o Presidente perguntou, largando seu copo de uísque na mesa e puxando a garrafa das mãos do Ministro.

- Não sei se devo falar-lhe, senhor.

- Me fala logo, caralho! Eu sou o Presidente! – disse o político, ingerindo um longo gole da bebida forte.

- Foi o senhor que pediu. – disse o General, sadicamente.

Imagens de um tsunami varrendo uma cidade, aparentemente irreconhecível, foram exibidas.

-Isso – o General parou a holografia, exibindo-a de outro ângulo. – é o Rio de Janeiro.

Na holografia, filmada a partir do Corcovado, era possível ver o tsunami, lentamente, avançando sobre a cidade, cobrindo absolutamente tudo com menos de cem metros de altura, como Ipanema, Copacabana..., e deixando apenas alguns morros, como a Rocinha, descobertos.

O Presidente, boquiaberto, não falou nada. Já o General, querendo mais um drinque, puxou a garrafa das mãos do Presidente, bebeu outro gole e mostrou mais uma imagem, claramente amadora e mal-filmada. Feita a partir de um prédio, exibia morros estranhamente familiares para o Presidente, no canto inferior esquerdo. Já no canto direito, era possível ver um corpo de água que, conforme se passavam os segundos, ia crescendo, englobando a cidade. O Presidente ainda parecia indiferente à situação.

Imediatamente, o General, quase gargalhando, mostrou rapidamente uma imagem, claramente montada, de um velho prédio com uma chaminé ao seu lado sendo cobertos por água.

E o Presidente, ao perceber a gravidade do evento, mudou suas feições de indiferente para horrorizado.

-Não! Não pode ser! – gritou o Presidente.

-Sim, senhor. É sim. – disse, com um sorriso malicioso, o General.

-Não...

E o General, agora sim gargalhando diabolicamente, falou, olhando nos olhos do líder:

- É sim. Sua cidade natal... Porto Alegre.

-Não! Como pode...? Deus! -o Presidente gritava de pânico, ao imaginar sua mãe, sua mulher e um de seus filhos afogando-se com a terrível onda.

O General exibiu novamente seu sadismo ao falar:

- É improvável que haja muitos sobreviventes, assim como no Rio, exceto os prévios habitantes dos morros.

Vendo que o Presidente estava à beira de um ataque cardíaco, continuou, tentando aliviá-lo, passado o sadismo:

-Mas, de qualquer modo, no Rio foi pior, pois a onda veio durante o expediente de trabalho, às nove horas, enquanto que em Porto Alegre ocorreu por volta das sete e meia da manhã.

- General, providencie que meu filho Carlinhos chegue aqui são e salvo. A conexão via satélite já voltou? – perguntou o Presidente, agora mais calmo.

- Sim.

- Farei um pronunciamento à nação esta noite. E que Deus nos ajude.

- Amém, senhor. – e o General alcançou-lhe a garrafa, fez uma continência e se aproximou da saída.

- General? – perguntou o Presidente.

- Sim, senhor Presidente.

- Você acha que as coisas um dia voltarão a ser como antes? Como antes desse terrível 17 de agosto?

O General, então, parou e refletiu.

- Sinceramente, senhor, não sou exatamente um otimista, apesar de que meu comportamento normal dê a entender isso.

- O quê significa isso, Marcus?

- Sim. Mas, até tudo voltar a ser como antes, muitos anos terão passado. Nenhum de nós viverá para ver esse novo mundo voltar a parecer com aquele em que nascemos. Mais uma coisa: eu garanto que não ouviremos falar tão cedo em “Res Publicas” ou idéias do gênero, por pior, ou melhor, que isso possa ser para o senhor.

O Presidente começou a digerir as palavras do Ministro. Como assim “não ouviremos falar tão cedo em Res Publicas ou idéias do gênero?”. Então, com um gesto frio, derramou o que restara do uísque no chão, e disse:

- Obrigado, General. Não se esqueça de pedir para que mandem Carlinhos para cá. Agora, ele é tudo que posso chamar de “minha família”.

- Sim, senhor. – e retirou-se.