O Presidente
“Cidadãos, hoje vos faço um pronunciamento muito importante. [...] Agora, encaramos nosso futuro, com perdas terríveis e irrecuperáveis. Agora em diante, seja como Deus quiser”.
Carlos Müller Geisel, presidente em ofício da República Federativa do Brasil, 2066-2081.
Era uma tarde comum de agosto, seca e ensolarada,
O segurança boliviano falava com outro, congolês, na entrada do jardim, parados à porta do Palácio, com seu design “futurista” de 100 anos atrás, e assim ficaram por minutos. O Presidente, de qualquer jeito, falou, para si mesmo, “que seja”, e continuou a caminhar, entrando no túnel de cerejeiras, onde apreciou as flores que, com a irrigação artificial, começavam a nascer.
Na saída, o congolês o esperava, junto do boliviano e de um terceiro, que parecia árabe. Imediatamente, o retinto segurança chamou a atenção do Presidente:
-Sir. Please, if you can, come with us.- disse o congolês, usando a língua mundial.
-Em português, por favor, senhor... - o Presidente olhou o ID do homem -... Mugabe. - disse o Presidente.
- Kemi Mugabe é novo aqui, senhor. - disse o boliviano. – Ele não sabe português, mas é um bom segurança.
- Por favor, presidente, venha conosco. – disse o árabe, com forte sotaque.
Os quatro homens voltaram para o Palácio cruzando o túnel de cerejeiras, o presidente na frente, os três seguranças atrás.
Saíram do jardim rapidamente, o presidente olhando para a paisagem que ele próprio criara, como Ministro da Agricultura, o terceiro cargo mais importante em todo o país. Ultrapassaram a entrada especial, e, cruzando um pequeno corredor, o Presidente estava em seu gabinete, feito inteiramente de vidro esverdeado e mármore. Nas paredes, fotos do Presidente com o Rei da Inglaterra, com a Chanceler da Europa, com o Frei Jones, e, no centro, da primeira-dama do Brasil, seus filhos gêmeos e o cachorro.
À sua frente, o Ministro da Defesa, em uniforme militar, o aguardava.
- Presidente Geisel. – o ministro tirou seu chapéu.
- General Silva. – disse o presidente, fazendo uma continência irônica, respondida com uma gargalhada pelo ministro, o general mais carismático que o Presidente jamais conhecera.
- Senhor, não sei se Vossa Excelência está a par dos acontecimentos, mas algo horrível ocorreu hoje. – disse o General, tentando controlar o riso.
- Outro grupo de Ilegais parado em Noronha, presumo? – disse o presidente, pegando um copo de uísque escocês.
- Não, senhor. Muito pior. – O ministro parou de sorrir, olhando o presidente com muita seriedade, como um General.
- O que seria, Marcus? – perguntou o Presidente.
O General, então, se aproximou de uma janela, e, com um toque e um estalar de dedos, as janelas escureceram e, de uma delas, o âncora da BHC falava extremamente nervoso. O Presidente podia ver, na própria sede da BHC, pessoas correndo, escandalizadas.
- Notícias acabaram de chegar. A Bolsa de Beijing foi destruída. A economia está arruinada.
Imagens da moderníssima capital da Índia apareceram. A cidade incendiava-se, e, de seus arranha-céus, centenas de pessoas pulavam para a morte.
Então, rapidamente, as imagens voltaram para o âncora, agora com os olhos inchados, que, com muita dificuldade, tornou a falar.
- Os senhores me desculpem, mas tenho de falar uma coisa. Meus filhos estavam no Rio. – e, pela primeira vez em sua vida, o Presidente vira um jornalista chorar, de verdade, e ao vivo.
O Ministro da Defesa desligou o holoprojetor, mas manteve a sala escura. Foi até o bar, pegou outra garrafa de uísque escocês e começou a beber no gargalo. O Presidente, em estado de choque, tentou falar:
- O que é isso, pelo amor de Deus?- disse, abismado. – É um filme, certo? Você sabe que eu caio nessas coisas, Marcus. Mas por que algo tão pesado quanto isso?- perguntou o político, agitado como uma criança.
- Senhor, não é um filme. Eu juro pelo Salvador.
- Então - disse o presidente, sem sentimentos. – Só pode ser a Terceira Guerra Mundial. Quem foi o agressor? Acredito que só podem ter sido os EUA, aqueles reacinhas de merda que não aceitam a Res Publica de modo algum!
- Carlos. – o Ministro mexia em seu computador, chamando o Presidente por seu primeiro nome. – Não é uma guerra convencional. Nenhuma arma foi disparada. Apenas isso.
Com um movimento de suas mãos, o General ligou novamente o holoprojetor.
- Essa. – o General parou a holografia antes mesmo de começar. – É a sede da Res Publica Terranorum, Oceano Atlântico Norte. – falou, exibindo um frame da imensa Insula Terrana, que, do oceano, erguia-se rumo ao céu com seu corpo de um quilômetro de altura.
Um filme, feito de dentro da própria torre, exibia uma onda imensa, que, surgindo do nada, simplesmente cobria os
- Não entendo... Como um tsunami na Insula pode ter afetado todo o planeta? – perguntou o Presidente.
-Cinco mil pessoas morreram aqui, imediatamente, incluindo o Chanceler Kánas – disse o General, tremendo. – Senhor, me desculpe.
- Há quantas horas isso ocorreu? – perguntou o Presidente.
- Duas, senhor.
- E por que não fui contatado anteriormente?
- Aparentemente, tivemos problemas de satélite por todo o planeta, quinze horas atrás, e recuperamos tudo há menos de duas horas. Mas, até agora, ninguém conseguiu contatar nenhuma das bases e cidades da Lua, e muito menos o posto de Marte.
- E quantas baixas acreditam-se ter ocorrido? – perguntou o Presidente.
- Aproximadamente dois bilhões de mortos, principalmente na China, na Índia e na Europa. Imagina-se que, em Bangladesh, um pequeno país do Sul da Ásia, dos 400 milhões de habitantes originais daquelas terras, pouco mais de 300 mil tenham sobrevivido.
- Meu Deus.
- É... Pelo menos nem Brasília nem Goiânia, minha cidade, foram afetadas.
- Ah, sim. General, fale-me uma coisa: e o Brasil? – o Presidente perguntou, largando seu copo de uísque na mesa e puxando a garrafa das mãos do Ministro.
- Não sei se devo falar-lhe, senhor.
- Me fala logo, caralho! Eu sou o Presidente! – disse o político, ingerindo um longo gole da bebida forte.
- Foi o senhor que pediu. – disse o General, sadicamente.
Imagens de um tsunami varrendo uma cidade, aparentemente irreconhecível, foram exibidas.
-Isso – o General parou a holografia, exibindo-a de outro ângulo. – é o Rio de Janeiro.
Na holografia, filmada a partir do Corcovado, era possível ver o tsunami, lentamente, avançando sobre a cidade, cobrindo absolutamente tudo com menos de cem metros de altura, como Ipanema, Copacabana..., e deixando apenas alguns morros, como a Rocinha, descobertos.
O Presidente, boquiaberto, não falou nada. Já o General, querendo mais um drinque, puxou a garrafa das mãos do Presidente, bebeu outro gole e mostrou mais uma imagem, claramente amadora e mal-filmada. Feita a partir de um prédio, exibia morros estranhamente familiares para o Presidente, no canto inferior esquerdo. Já no canto direito, era possível ver um corpo de água que, conforme se passavam os segundos, ia crescendo, englobando a cidade. O Presidente ainda parecia indiferente à situação.
Imediatamente, o General, quase gargalhando, mostrou rapidamente uma imagem, claramente montada, de um velho prédio com uma chaminé ao seu lado sendo cobertos por água.
E o Presidente, ao perceber a gravidade do evento, mudou suas feições de indiferente para horrorizado.
-Não! Não pode ser! – gritou o Presidente.
-Sim, senhor. É sim. – disse, com um sorriso malicioso, o General.
-Não...
E o General, agora sim gargalhando diabolicamente, falou, olhando nos olhos do líder:
- É sim. Sua cidade natal... Porto Alegre.
-Não! Como pode...? Deus! -o Presidente gritava de pânico, ao imaginar sua mãe, sua mulher e um de seus filhos afogando-se com a terrível onda.
O General exibiu novamente seu sadismo ao falar:
- É improvável que haja muitos sobreviventes, assim como no Rio, exceto os prévios habitantes dos morros.
Vendo que o Presidente estava à beira de um ataque cardíaco, continuou, tentando aliviá-lo, passado o sadismo:
-Mas, de qualquer modo, no Rio foi pior, pois a onda veio durante o expediente de trabalho, às nove horas, enquanto que
- General, providencie que meu filho Carlinhos chegue aqui são e salvo. A conexão via satélite já voltou? – perguntou o Presidente, agora mais calmo.
- Sim.
- Farei um pronunciamento à nação esta noite. E que Deus nos ajude.
- Amém, senhor. – e o General alcançou-lhe a garrafa, fez uma continência e se aproximou da saída.
- General? – perguntou o Presidente.
- Sim, senhor Presidente.
- Você acha que as coisas um dia voltarão a ser como antes? Como antes desse terrível 17 de agosto?
O General, então, parou e refletiu.
- Sinceramente, senhor, não sou exatamente um otimista, apesar de que meu comportamento normal dê a entender isso.
- O quê significa isso, Marcus?
- Sim. Mas, até tudo voltar a ser como antes, muitos anos terão passado. Nenhum de nós viverá para ver esse novo mundo voltar a parecer com aquele em que nascemos. Mais uma coisa: eu garanto que não ouviremos falar tão cedo em “Res Publicas” ou idéias do gênero, por pior, ou melhor, que isso possa ser para o senhor.
O Presidente começou a digerir as palavras do Ministro. Como assim “não ouviremos falar tão cedo em Res Publicas ou idéias do gênero?”. Então, com um gesto frio, derramou o que restara do uísque no chão, e disse:
- Obrigado, General. Não se esqueça de pedir para que mandem Carlinhos para cá. Agora, ele é tudo que posso chamar de “minha família”.
- Sim, senhor. – e retirou-se.
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