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Contos de Uma Mente Insana: Para começar, nada mais do que o Primeiro!

domingo, 25 de novembro de 2007

Para começar, nada mais do que o Primeiro!

O Presidente

“Cidadãos, hoje vos faço um pronunciamento muito importante. [...] Agora, encaramos nosso futuro, com perdas terríveis e irrecuperáveis. Agora em diante, seja como Deus quiser”.

Carlos Müller Geisel, presidente em ofício da República Federativa do Brasil, 2066-2081.

Era uma tarde comum de agosto, seca e ensolarada, em Brasília. O Presidente, em suas roupas biodegradáveis (ou, como seu maior crítico, da revista Ação, dizia: “para agradar aos ambientalistas”), caminhava em seu jardim oriental, quando as notícias chegaram.

O segurança boliviano falava com outro, congolês, na entrada do jardim, parados à porta do Palácio, com seu design “futurista” de 100 anos atrás, e assim ficaram por minutos. O Presidente, de qualquer jeito, falou, para si mesmo, “que seja”, e continuou a caminhar, entrando no túnel de cerejeiras, onde apreciou as flores que, com a irrigação artificial, começavam a nascer.

Na saída, o congolês o esperava, junto do boliviano e de um terceiro, que parecia árabe. Imediatamente, o retinto segurança chamou a atenção do Presidente:

-Sir. Please, if you can, come with us.- disse o congolês, usando a língua mundial.

-Em português, por favor, senhor... - o Presidente olhou o ID do homem -... Mugabe. - disse o Presidente.

- Kemi Mugabe é novo aqui, senhor. - disse o boliviano. – Ele não sabe português, mas é um bom segurança.

- Por favor, presidente, venha conosco. – disse o árabe, com forte sotaque.

Os quatro homens voltaram para o Palácio cruzando o túnel de cerejeiras, o presidente na frente, os três seguranças atrás.

Saíram do jardim rapidamente, o presidente olhando para a paisagem que ele próprio criara, como Ministro da Agricultura, o terceiro cargo mais importante em todo o país. Ultrapassaram a entrada especial, e, cruzando um pequeno corredor, o Presidente estava em seu gabinete, feito inteiramente de vidro esverdeado e mármore. Nas paredes, fotos do Presidente com o Rei da Inglaterra, com a Chanceler da Europa, com o Frei Jones, e, no centro, da primeira-dama do Brasil, seus filhos gêmeos e o cachorro.

À sua frente, o Ministro da Defesa, em uniforme militar, o aguardava.

- Presidente Geisel. – o ministro tirou seu chapéu.

- General Silva. – disse o presidente, fazendo uma continência irônica, respondida com uma gargalhada pelo ministro, o general mais carismático que o Presidente jamais conhecera.

- Senhor, não sei se Vossa Excelência está a par dos acontecimentos, mas algo horrível ocorreu hoje. – disse o General, tentando controlar o riso.

- Outro grupo de Ilegais parado em Noronha, presumo? – disse o presidente, pegando um copo de uísque escocês.

- Não, senhor. Muito pior. – O ministro parou de sorrir, olhando o presidente com muita seriedade, como um General.

- O que seria, Marcus? – perguntou o Presidente.

O General, então, se aproximou de uma janela, e, com um toque e um estalar de dedos, as janelas escureceram e, de uma delas, o âncora da BHC falava extremamente nervoso. O Presidente podia ver, na própria sede da BHC, pessoas correndo, escandalizadas.

- Notícias acabaram de chegar. A Bolsa de Beijing foi destruída. A economia está arruinada. Em Nova Delhi, uma dos poucos grandes centros econômicos ainda inteiros, aqueles que podem correm. Aqueles que não podem, suicidam-se.

Imagens da moderníssima capital da Índia apareceram. A cidade incendiava-se, e, de seus arranha-céus, centenas de pessoas pulavam para a morte.

Então, rapidamente, as imagens voltaram para o âncora, agora com os olhos inchados, que, com muita dificuldade, tornou a falar.

- Os senhores me desculpem, mas tenho de falar uma coisa. Meus filhos estavam no Rio. – e, pela primeira vez em sua vida, o Presidente vira um jornalista chorar, de verdade, e ao vivo.

O Ministro da Defesa desligou o holoprojetor, mas manteve a sala escura. Foi até o bar, pegou outra garrafa de uísque escocês e começou a beber no gargalo. O Presidente, em estado de choque, tentou falar:

- O que é isso, pelo amor de Deus?- disse, abismado. – É um filme, certo? Você sabe que eu caio nessas coisas, Marcus. Mas por que algo tão pesado quanto isso?- perguntou o político, agitado como uma criança.

- Senhor, não é um filme. Eu juro pelo Salvador.

- Então - disse o presidente, sem sentimentos. – Só pode ser a Terceira Guerra Mundial. Quem foi o agressor? Acredito que só podem ter sido os EUA, aqueles reacinhas de merda que não aceitam a Res Publica de modo algum!

- Carlos. – o Ministro mexia em seu computador, chamando o Presidente por seu primeiro nome. – Não é uma guerra convencional. Nenhuma arma foi disparada. Apenas isso.

Com um movimento de suas mãos, o General ligou novamente o holoprojetor.

- Essa. – o General parou a holografia antes mesmo de começar. – É a sede da Res Publica Terranorum, Oceano Atlântico Norte. – falou, exibindo um frame da imensa Insula Terrana, que, do oceano, erguia-se rumo ao céu com seu corpo de um quilômetro de altura.

Um filme, feito de dentro da própria torre, exibia uma onda imensa, que, surgindo do nada, simplesmente cobria os 100 metros inferiores da torre.

- Não entendo... Como um tsunami na Insula pode ter afetado todo o planeta? – perguntou o Presidente.

-Cinco mil pessoas morreram aqui, imediatamente, incluindo o Chanceler Kánas – disse o General, tremendo. – Senhor, me desculpe.

- Há quantas horas isso ocorreu? – perguntou o Presidente.

- Duas, senhor.

- E por que não fui contatado anteriormente?

- Aparentemente, tivemos problemas de satélite por todo o planeta, quinze horas atrás, e recuperamos tudo há menos de duas horas. Mas, até agora, ninguém conseguiu contatar nenhuma das bases e cidades da Lua, e muito menos o posto de Marte.

- E quantas baixas acreditam-se ter ocorrido? – perguntou o Presidente.

- Aproximadamente dois bilhões de mortos, principalmente na China, na Índia e na Europa. Imagina-se que, em Bangladesh, um pequeno país do Sul da Ásia, dos 400 milhões de habitantes originais daquelas terras, pouco mais de 300 mil tenham sobrevivido.

- Meu Deus.

- É... Pelo menos nem Brasília nem Goiânia, minha cidade, foram afetadas.

- Ah, sim. General, fale-me uma coisa: e o Brasil? – o Presidente perguntou, largando seu copo de uísque na mesa e puxando a garrafa das mãos do Ministro.

- Não sei se devo falar-lhe, senhor.

- Me fala logo, caralho! Eu sou o Presidente! – disse o político, ingerindo um longo gole da bebida forte.

- Foi o senhor que pediu. – disse o General, sadicamente.

Imagens de um tsunami varrendo uma cidade, aparentemente irreconhecível, foram exibidas.

-Isso – o General parou a holografia, exibindo-a de outro ângulo. – é o Rio de Janeiro.

Na holografia, filmada a partir do Corcovado, era possível ver o tsunami, lentamente, avançando sobre a cidade, cobrindo absolutamente tudo com menos de cem metros de altura, como Ipanema, Copacabana..., e deixando apenas alguns morros, como a Rocinha, descobertos.

O Presidente, boquiaberto, não falou nada. Já o General, querendo mais um drinque, puxou a garrafa das mãos do Presidente, bebeu outro gole e mostrou mais uma imagem, claramente amadora e mal-filmada. Feita a partir de um prédio, exibia morros estranhamente familiares para o Presidente, no canto inferior esquerdo. Já no canto direito, era possível ver um corpo de água que, conforme se passavam os segundos, ia crescendo, englobando a cidade. O Presidente ainda parecia indiferente à situação.

Imediatamente, o General, quase gargalhando, mostrou rapidamente uma imagem, claramente montada, de um velho prédio com uma chaminé ao seu lado sendo cobertos por água.

E o Presidente, ao perceber a gravidade do evento, mudou suas feições de indiferente para horrorizado.

-Não! Não pode ser! – gritou o Presidente.

-Sim, senhor. É sim. – disse, com um sorriso malicioso, o General.

-Não...

E o General, agora sim gargalhando diabolicamente, falou, olhando nos olhos do líder:

- É sim. Sua cidade natal... Porto Alegre.

-Não! Como pode...? Deus! -o Presidente gritava de pânico, ao imaginar sua mãe, sua mulher e um de seus filhos afogando-se com a terrível onda.

O General exibiu novamente seu sadismo ao falar:

- É improvável que haja muitos sobreviventes, assim como no Rio, exceto os prévios habitantes dos morros.

Vendo que o Presidente estava à beira de um ataque cardíaco, continuou, tentando aliviá-lo, passado o sadismo:

-Mas, de qualquer modo, no Rio foi pior, pois a onda veio durante o expediente de trabalho, às nove horas, enquanto que em Porto Alegre ocorreu por volta das sete e meia da manhã.

- General, providencie que meu filho Carlinhos chegue aqui são e salvo. A conexão via satélite já voltou? – perguntou o Presidente, agora mais calmo.

- Sim.

- Farei um pronunciamento à nação esta noite. E que Deus nos ajude.

- Amém, senhor. – e o General alcançou-lhe a garrafa, fez uma continência e se aproximou da saída.

- General? – perguntou o Presidente.

- Sim, senhor Presidente.

- Você acha que as coisas um dia voltarão a ser como antes? Como antes desse terrível 17 de agosto?

O General, então, parou e refletiu.

- Sinceramente, senhor, não sou exatamente um otimista, apesar de que meu comportamento normal dê a entender isso.

- O quê significa isso, Marcus?

- Sim. Mas, até tudo voltar a ser como antes, muitos anos terão passado. Nenhum de nós viverá para ver esse novo mundo voltar a parecer com aquele em que nascemos. Mais uma coisa: eu garanto que não ouviremos falar tão cedo em “Res Publicas” ou idéias do gênero, por pior, ou melhor, que isso possa ser para o senhor.

O Presidente começou a digerir as palavras do Ministro. Como assim “não ouviremos falar tão cedo em Res Publicas ou idéias do gênero?”. Então, com um gesto frio, derramou o que restara do uísque no chão, e disse:

- Obrigado, General. Não se esqueça de pedir para que mandem Carlinhos para cá. Agora, ele é tudo que posso chamar de “minha família”.

- Sim, senhor. – e retirou-se.

2 comentários:

Anônimo disse...
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Termutes, Rubião e Eu (juju) disse...
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